SOBRE O BLOG

Miscelânea intuitiva de gostos, sonhos, desejos, angústias, paixões e destemperamentos, e,porque não, de ódios, raivas e estresses... Miscelânea é assim: TEM DE TUDO!

Meu Diário de Bordo da solidão, meu painel de idéias e guia de entendimento, tudo misturado com humor, drama, terror, anti-corintianismo, sentimentos e doses homeopáticas de papo sério.

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segunda-feira, 7 de junho de 2010

SENHOR KAPUTINIK

Olho e o vejo. Ele está ali, como todos os dias, nessa mesma hora. 

Senta-se diariamente, exatamente a uma em ponto, sempre comendo alguma coisa. Aquela boca mole, movendo incessantemente a mandíbula para cima e para baixo já faz parte de sua pessoa e de sua imagem em minha mente. No dia em que não estiver mastigando algo, morreu! 

Sua pança de cerveja é maior que a minha, e eu não tomo cerveja... Os cabelos brancos dão sinais de mais de sessenta anos. Eu tenho cá comigo os meus grisalhinhos, um aqui e um montinho ali, mas só tenho vinte e oito anos... Imagino-me aos sessenta! Voltando a ele, os óculos, que parecem aqueles do Maluf de setenta e oito dão um toque de démodé aquela nada singular figura... 
Observo-o e lembro-me do antigo Egito, onde todos só andavam de lado, como nos desenhos encontrados dentro das pirâmides. Só o vejo de perfil, sempre do lado direito, tanto o corpo quanto o rosto e a pança.

Sua janela tem duas persianas azuis, e ele só abre a da esquerda. Senta-se numa cadeira e desde esse momento só vejo sua cabeça, sempre com sua mandíbula trabalhando, continuamente. Por isso é gordo!

Acho que ele passa as tardes assistindo tv. Aposentado? Talvez... Não deixa de ser uma hipótese ad hoc...

O mais incrível é que nunca olha para fora da sua janela. Senta-se e mantém o olhar fixo para frente, sempre mascando, decidido, como se não lhe importasse o mundo exterior ou a avenida barulhenta que ladeia seu prédio. Olhar fixo, quase sem piscar, sempre em frente!

Ele mora no quarto andar do prédio em frente ao meu. Abro minha janela e sempre o vejo. Chamo-o de senhor Kaputinik. Um dia, descubro seu nome verdadeiro. Por enquanto, deixa Kaputinik mesmo... É um bom nome para alguém misterioso como ele.

Vejo-o pela janela, sem nada para fazer, somente assistindo tv, e especulo sobre sua vida ou seu passado... Imagino-o, talvez, um soldado que lutou na guerra do Vietnã e tomou um tiro de fuzil no rosto, mais precisamente do lado esquerdo, o lado oculto daquela lua que mora em frente minha janela. Visualizo suas cicatrizes em forma de pano velho remendado, que lhe dão dor e vergonha de encarar o mundo de frente, sem nunca olhar lá fora, nem uma única olhadinha sequer...

Já fiquei sentado, olhando pela janela de meu apartamento, por mais de duas horas e ele NUNCA virou o rosto. Lembrei-me do filme “O HOMEM SEM FACE”, do Mel Gibson, onde ele era um gênio que sofreu um acidente no rosto e escondeu-se do mundo.

Talvez seja essa a história do senhor Kaputinik. Talvez ele seja um gênio, que ao trabalhar com raios gama, num laboratório em Nova York foi afetado pela experiência e tenha metade do seu rosto verde-limão fosforescente.

Olho lá e lá ele continua. Comendo, sempre... 





Acho que são amendoins o que ele tanto come, pois o vi levando algo parecido à sua boca. Preciso de um binóculo. Talvez seja isso a resposta às minhas dúvidas: sim, aquilo são amendoins! O senhor Kaputinik era na verdade um ator-pornô famoso que, ao envelhecer, amoleceu, e hoje vive nostálgico, tentando voltar à velha forma de outrora para participar do filme “AS VELHAS TARADAS DO ANHANGABAÚ”.


Olho-o mais uma vez. Seu rosto, ou meio-rosto, parece-me familiar. Ele lembra o general Costa e Silva, o ex-presidente, só que de cabelos brancos. A mesma armação de óculos super-hiper-ultrapassada, o mesmo narigão, a mesma cara rabugenta comendo amendoim o dia todo, sem fazer nada, perdendo seu tempo olhando para frente, sem ao menos ver as pessoas passando pela rua ou saber que há um vizinho de frente que está curioso em saber se ele tem a outra metade da cara ou não... Talvez Costa e Silva não tenha morrido, e sim sumido! Deixou-nos com o AI-5 nas mãos e se pirulitou, fingindo-se de morto, acabando os seus dias morando no apartamento em frente ao meu...

Vai saber quem é, na verdade, o senhor Kaputinik... Eis um grande enigma que ronda, atualmente, minha vida. E vai saber, na verdade, o que eu tenho a ver com isso...

Mistérios da vida...

2 comentários:

Michele P. disse...

Que fotinho é essa? kkkkkkkkk

Vc está cada dia pior. Fico preocupada. rs

Beijocas

Jeany disse...

Que viagem!!!!

Já ouvi essa história antes, rs!

Acho que poderia criar outra boa história passeando pelo centro!

Sempre tem "figuras" para se inspirar, rs!

Beijos