SOBRE O BLOG

Miscelânea intuitiva de gostos, sonhos, desejos, angústias, paixões e destemperamentos, e,porque não, de ódios, raivas e estresses... Miscelânea é assim: TEM DE TUDO!

Meu Diário de Bordo da solidão, meu painel de idéias e guia de entendimento, tudo misturado com humor, drama, terror, anti-corintianismo, sentimentos e doses homeopáticas de papo sério.

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terça-feira, 29 de julho de 2008

DIA DOS PAIS

Estamos chegando ao Dia dos Pais... se não me perco nas contas, esse é o nono ano sem ter alguém à quem dar o meu presente, o nono ano sem meu pai...
Estranho essa data...
Não sinto mais falta de meu pai hoje do que senti ontem ou anteontem... Ele é tão onipresente em todos os momentos de minha vida, tanto nos ruins quanto nos bons, que todos os dias acabam tendo o mesmo significado que o Dia dos Pais, apesar de que, com toda a mídia que se forma e todas as propagandas e homenagens que assistimos, essa semana sempre me traz um pouco de nostalgia e muito de saudades...
Lembrei-me de agostos anteriores, nos quais o Dia dos Pais era comemorado junto ao meu... Havia, no sábado, um clima excitante no ar, todos, eu e meus irmãos, aguardando o relógio marcar meia-noite e um minuto para, juntos, irmos correndo abraçar meu pai e entregarmos os presentes que havíamos comprado com um mês de folga... Tínhamos lombriga para entregá-los o quanto antes, curiosidade para ver sua cara de espanto ou de feliz e descobrir quem havia comprado o presente que ele mais iria usar ou o que era o mais incomum...
Em geral, meu pai sabia que ganharia presentes de todos, pois era ele próprio quem pagava pelos presentes, mas no fundo ele amava aquela forma de comemorá-lo. O dinheiro nunca significou nada pra ele, e naquela data, valia menos ainda.
Tornando aos presentes, normalmente era meu o presente mais caro ou manjado.
Quase sempre, ele ganhava de mim uma caneta, a mais moderna ou bonita que houvesse na loja. Não havia lançamento de caneta que meu pai não ganhasse, quer seja no Dia dos Pais, no Natal ou em seu aniversário. Era caneta com relógio, caneta com lapiseira, caneta com duas cores, de metal, importada, japonesa, que escreve de ponta-cabeça, apesar de que ainda hoje me pergunto o motivo de se ter uma caneta que se escreva de cabeça pra baixo... Nas datas comemorativas, lá vinha o Celso, filho sem criatividade nenhuma por aqueles idos, passear pelas papelarias e procurar um novo modelo de caneta. O chato dessa história era que ele sempre adivinhava o presente que estava em suas mãos, não importando nunca o tamanho da embalagem, mesmo que usasse uma caixa de tv de 29 polegadas para embrulhar o presente. Cheguei a amarrar uma caneta com dois ou três tijolos dentro da caixa. Ele segurava e dizia:

-Não sei não, mas acho que é uma caneta...




Como ele usava canetas o tempo todo e como eu não tinha mais nenhuma idéia sobre o que comprar para meu pai, nunca liguei para o fato de matar o suspense antes de criá-lo, mas com o tempo evoluí e comecei a pensar em outras formas de expressar meu carinho, formas que passassem longe das papelarias... Comecei com um abrigo esportivo, um walk-man para suas caminhadas, uma camisa moderna mais moderninha...
Meu pai sempre foi muito comemorado em nossa casa, pois tínhamos a consciência do quão raro e precioso era alguém como ele, mesmo com todas as brigas ou desentendimentos que, às vezes, ou sempre, aconteciam entre nós.
Acordá-lo e dizer:

-Feliz Dia dos Pais!- junto aos meus irmãos, era um acontecimento tão esperado quanto o aniversário ou Natal, mas havia um gostinho especial, diferente das outras datas, pois ali deixávamos muito claro que ele era o nosso pai e que aquele era o dia de comemorá-lo, por ser o melhor pai do mundo...
Ainda me lembro do último presente que dei a ele, no derradeiro Dia dos Pais que passou entre nós: uma linda e maravilhosa... caneta! Havia seis anos que ele não ganhava uma de mim e pensei, comigo mesmo que ele não iria adivinhar o quanto eu havia retrocedido no tempo e voltado à simples, corriqueira e óbvia caneta. Pensei no presente quando, alguns dias antes, havia pedindo a sua emprestada e ele disse que estava sem. Entre pensar e comprar foi um pulo, e dei-lhe um pacotão, com muito papel e com uma caixa 100 vezes maior do que o presente. Ele segurou, sacudiu no ar, e disse:

-Era exatamente o que eu estava precisando: uma caneta!

Olhei-o admirado. Como ele havia descoberto o que eu comprara? Será que eu tinha um olhar especial, que dizia:

“Você nunca vai descobrir que dentro desse pacotão tem uma caneta...” - ao me olharem nos olhos?
Será que meu pai tinha os poderes do Walter Mercado?
Não sei. Só me lembro que, de alguma forma, ele descobriu o que era o meu presente, mas eu sabia que ele precisava justamente daquilo e não liguei para o fato de não haver surpresas. E não ligaria hoje, ao lhe dar o meu presente, se ele olhasse no fundo de meus olhos e dissesse, sorrindo:

-É exatamente isso o que eu precisava: uma caneta!

O que seriam todas as surpresas do mundo ante ao olhar e o sorriso de meu pai, após todos esses anos de ausência e falta e saudades, num Dia dos Pais?
Quem precisa de surpresas? Precisava é de meu pai comigo... Hoje, mais que nunca... E pensando nele, hoje, desejo do fundo de meu coração:

-Pai, tenha um feliz Dia dos Pais, esteja onde você estiver... apesar de saber que você está, sempre, junto comigo... E apesar de eu sempre estragar suas surpresas dando-lhe sempre a mesma única e óbvia caneta...

3 comentários:

Andréa disse...

Lindo, lindo, lindo... Claro que você me fez ficar com lágrimas nos olhos...

drica disse...

sem palavras...e tb com uma lagrima teimando em cair...bjs

Noa_Prada disse...

Vou dar novamente um feed-back deste texto...A.D.O.R.E.I!E como sei da sua relação com canetas, rs, entendo que ganhar uma caneta sua é um presentão de coração!!!
Te amo, vida!