SOBRE O BLOG

Miscelânea intuitiva de gostos, sonhos, desejos, angústias, paixões e destemperamentos, e,porque não, de ódios, raivas e estresses... Miscelânea é assim: TEM DE TUDO!

Meu Diário de Bordo da solidão, meu painel de idéias e guia de entendimento, tudo misturado com humor, drama, terror, anti-corintianismo, sentimentos e doses homeopáticas de papo sério.

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quinta-feira, 20 de março de 2008

DE CARA COM A MORTE

Essa noite, quase morri.
Senti a presença fria da Morte ao meu lado, me observando, me testando, me sentindo.
Senti seus olhos percorrendo meu corpo, senti seus dedos acariciando minha pele, senti o vazio de sua mão tocando minha alma.
Estranho isso de morrer. Nunca havia me acontecido antes de sentir essa presença junto a mim da forma que senti essa noite. Nunca havia pensado que seria algo tão sereno quanto foi e não algo apavorante quanto imaginamos que seja.
Começou tudo por uma pequena dor no peito. A dor foi aumentando, aumentando, até que tornar-se insuportável. Pronto: percebi que não passaria daquela noite...
Eu já estava deitado e quase dormindo quando aconteceu a tal sensação, quando meu braço esquerdo começou a formigar, quando o ar começou a faltar, quando o coração começou a bater de forma desordenada. Percebi que minha hora havia chegado.
Dois pensamentos percorreram minha mente naquele instante, apenas dois. A história de filminho na cabeça, no qual vemos nossa vida passando, o sentimento de culpa, a visualização dos erros, nada daquilo veio a minha mente em meu momento derradeiro. Só aqueles dois pensamentos que, se vermos por um prisma lógico, eram co-relacionados.
Pensei no livro que me falta acabar de escrever. Está ali, quase pronto, quase no final, e não acabei ainda. Meu presente para a posteridade, a prova viva de que passei por aqui, o testemunho completo, em letras de forma, de que fui um ser pensante e real. Meu primeiro pensamento, em meu instante derradeiro, foi em meu livro.
Meu segundo pensamento naquele momento foi em outro livro. Tenho de acabar de ler “A Menina que Roubava Livros”... Está ali, ao lado de minha cama, aquele calhamaço de mais de 500 páginas, que me faz companhia desde domingo passado e que já estou prestes a acabar. Umas cem páginas me separam do final do livro, de seu instante derradeiro, da verdade que já foi dita e nunca poderá ser mudada. E o estranho é que o livro foi escrito por ela, por minha companheira naquele quarto escuro e na madrugada fria de ontem. A Menina que Roubava Livros é um livro escrito pela Morte, sem gadanha...
Afora esses dois pensamentos que me ocorreram, mais nada. Não pensei no amor que perdi - foda-se o amor que perdi – nem no amor que não chegou ainda. Não pensei nos amigos que fiz, nos inimigos que tenho, na faculdade, em sexo, em Jesus, em Hitler, no ovo de Páscoa que está guardado no meu armário e que comprei para alguma emergência, nada disso. Enquanto estava ali, lutando no escuro para não morrer, meus únicos pensamentos eram os dois livros inacabados: o que me falta escrever e o que me falta ler.
Uma vez, disse para uma pessoa que me foi especial que meu maior medo na vida era morrer sozinho, já velho, num quarto cheirando mofo e repleto de livros por todos os lados. Não seria o primeiro e não seria o último a morrer assim, mas me dava medo de pensar que esse poderia ser meu futuro e disse isso a ela.
-Tenho medo de morrer assim...
Meu quarto não cheira mofo. Meus livros são novos, o mais velho tem uns 15 anos, a maioria não chega aos 10. Meu quarto tem cheiro do perfume que uso e abuso, cheiro de incenso de morango de vez em vez ou cheiro de chocolate no meio da madrugada, e, cá entre nós, seria bom morrer nele, se eu não tivesse tanto em meu caminho por fazer, como terminar de escrever aquele livro eterno que está quase no fim ou finalizar aquele novo livro, escrito pela Morte, e que me faz lembrar o quão nada é nossa vida e o quão simples é passarmos por ela sem nos determos pensando em amantes, dinheiro, carros...
Percebi o quanto complicamos a vida, o quanto tornamos tudo mais difícil, o quanto achamos que somos seres complexos e não-entendidos, mas que, no final das contas, todo o sofrimento é em vão e na hora H, o que vem à lembrança é o mais simples de tudo, é o mais frugal dos frugais.
Dois livros que me faltam terminar. Talvez estão aí, neles, os únicos motivos que me impediram de segurar aquela mão fria que me tocava a alma e partir. Que demore muito para terminá-los...

Um comentário:

Luciana Yumi disse...

Nossa!! E o que aconteceu depois? A dor no peito passou, foi no medico...?
Reivindico o post "De cara com a morte - parte 2"! =)
E ler seu blog me lembrou que eu abandonei temporariamente o meu! =/

bjuss