SOBRE O BLOG

Miscelânea intuitiva de gostos, sonhos, desejos, angústias, paixões e destemperamentos, e,porque não, de ódios, raivas e estresses... Miscelânea é assim: TEM DE TUDO!

Meu Diário de Bordo da solidão, meu painel de idéias e guia de entendimento, tudo misturado com humor, drama, terror, anti-corintianismo, sentimentos e doses homeopáticas de papo sério.

Chega junto, arruma um banquinho, senta aí e vem comigo!

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sábado, 22 de maio de 2010

LEITORES DE RUA

Caminhava eu pelas ruas de minha cidade, clima primaveril, ruas estavam calmas, noite já estava alta, as estrelas brilhavam num céu límpido.

De repente, vindo não sei de onde e indo também para não sei onde, apareceu um ônibus, barulhento, fumacento, fazendo uma curva aberta e vindo em minha direção. Faltou pouco para que ele subisse na calçada e terminasse, ali, naquele instante, minha narração desse dia feliz. Como já disse que faltou pouco, fica claro que ele não subiu, e não subindo, tornemos à minha narrativa...

O ônibus passa ao meu lado e vejo, claro e brilhante, o banner de propaganda que ele carregava, enorme, estampado em sua lateral: novo livro de Paulo Coelho.

O rosto do fulano era maior que os dizeres do banner, o nome do autor maior que o nome do livro, seu talento de imortal precedendo a qualidade do que escreve.

Pensei comigo mesmo:

“Será que algum dia eu verei um banner, assim, com minha foto, meu nome e meu livro? Vou fazer meu olhar 43 na hora das fotos...



Dias depois, entro no metrô. Olho em frente e vejo uma moça, mais ou menos uns vinte anos, óculos redondo, cabelos lisos e o novo livro do Paulo Coelho em frente ao seu rosto.

Imaginação ao vento, vi-a no mesmo lugar, só que lendo meu 400 RÉIS meu ao invés do novo livro do PC. Qual será a sensação de saber-se “lido“? Qual deve ser a sensação de ver alguém, um desconhecido, “lendo-nos”?

Imaginei o que eu faria se isso acontecesse comigo, um dia. Sentaria ao lado da moça e puxaria conversa:

-Oi, tudo bem?

-Tudo... -
diz ela, sem entusiasmo nenhum em conversar com estranhos.

-Desculpe interromper sua leitura, mas é que ouvi falar tanto nesse livro, e agora vejo que você está lendo... O que acha dele? 

Ouviria sua explanação com o maior carinho, quase tomando nota de suas palavras, saboreando-as, pois ninguém entende tanto de literatura quanto o leitor que me lê.

-Nossa, esse livro é tudo de bom! Não sei como consegui viver todos esses anos sem lê-lo! E o autor? É um gatão! Se eu conhecesse, dava pra ele! Tem um olhar 43 matador!

Depois de ouvi-la, trocaríamos mais uma ou duas palavras e eu, no final, entregaria o meu cartão, mostrando o meu nome a ela e revelando o fato de ser “eu” o autor do livro que ela tanto estava gostando.

-Lembra do que acabou de dizer? 

Claro que haveria a possibilidade dela dizer, quando questionada sobre o livro:

-É uma droga, a pior coisa que eu já li, não sei nem como publicaram uma lixeira dessas... Só estou lendo por que meu namorado me deu e vai perguntar sobre ele... Meu namorado é um saco: dá um presente e pergunta mil vezes: “E O COLAR, E O RELÓGIO, E O ANEL...” Aliás, acho que vou largar meu namorado antes do final do livro, daí não preciso terminar essa droga e nem agüentar ele perguntando: “E O LIVRO?”

Nesse caso, óbvio, guardo meu cartão. Não sou bom com críticas destrutivas, principalmente dadas por quem não entende nada de literatura, como uma reles e desprezível leitora de metrô, que namora um cara que só busca saber da sua felicidade e cultura.

Pensando bem, talvez seja melhor deixar a minha leitora em paz, quieta, no seu canto. Caso ela me reconheça, ótimo, toma lá meu cartão. Caso não, ainda assim fico com o gostinho de ser lido...

5 comentários:

Anônimo disse...

- E que está achando do livro?
- Nossa!! Estou adorando!! Ele é muito bom, fico me perguntando porque demorei tanto para achar este autor, agora que achei (demorei 34 anos para achar) não largo mais!! Para mim é sucesso na certa, o livro e o autor!!

Michele P. disse...

Pelo amor de Deus: lança logo este livro! Vc está ficando paronóico e eu aterrorizada. rs

PS: Por ironia do destino, li uma reportagem sobre o Rabbit esta semana.Digo por ironia, porque não gosto do autor, nem do que ele escreve, nem de nada que se refira à ele... Mas enfim, as vezes a curiosidade é maior e acabamos nos rendendo a manchete jornalística. Como eu ia dizendo, na reportagem, o Rabbit orgulhava-se de ser um dos primeiros "grandes" autores a facilitar a pirataria de seus livros, inclusive lançando-os ao "mar dará"(digo, na internet)para que seus leitores possam livremente se deliciar com suas "sábias" palavras.

Confesso que entrei em parafuso... mas quer saber? Vou fazer um post sobre isso... risos


Beijos

Flávia disse...

Quanto ao texto, adorei, já cansei de elogiar o que vc escreve, mas parece que, pelo sumiço, vc é quem cansou de ouvi-los.

LOGAN disse...

SIM, DONA FLÁVIA, esse botão foi pensado em você, a matriarca dos chefes chatos nesse blog perdido nesse mundão de deus...

LOGAN disse...

NÃO SEI QUEM FOI O ANÔNIMO que mudou a frase da leitora do metrô, mas só tenho a dizer que concordo, afinal, agora que estou ficando quase nobélico (que tem chances de ganhar o Nobel), não posso ser pego com pensamentos tão mundanos como esse...