SOBRE O BLOG

Miscelânea intuitiva de gostos, sonhos, desejos, angústias, paixões e destemperamentos, e,porque não, de ódios, raivas e estresses... Miscelânea é assim: TEM DE TUDO!

Meu Diário de Bordo da solidão, meu painel de idéias e guia de entendimento, tudo misturado com humor, drama, terror, anti-corintianismo, sentimentos e doses homeopáticas de papo sério.

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quinta-feira, 29 de abril de 2010

TANQUE DE GUERRA

O menino estava sentado, só, em uma cadeira qualquer da biblioteca de sua escola. Aliás, sempre estava só e sempre estava lá, sentado, lendo. Olhava atentamente a grossa enciclopédia que tinha em suas mãos. O assunto: Grandes Líderes. 

Ele sentia uma admiração por eles. Sentia inveja do carisma de Hitler, do magnetismo de Napoleão, do fascínio e da mística que ele causava até hoje em dia. Queria somente ser admirado, também. Sabia que ambos haviam sido pobre, como ele, que também eram sozinhos, que sentiam medo... 

Tinha amigos, bons amigos, diga-se de passagem, mas nenhum amigo suficiente para saber o que lhe passava na alma ou ardia em seu peito. No fundo, tinha vergonha de si mesmo. As espinhas que marcavam o seu rosto ajudaram a torná-lo uma pessoa isolada. Também era gordo, não desses gordos que não passam numa catraca de ônibus, mas para seus 14, 15 anos, sentia-se enorme e desengonçado. Sentia-se diferente dos outros... A família estava sem dinheiro e eram suas as piores roupas da classe. Só podia sobressair-se como o rebelde, como alguém que apronta, como o palhaço da classe, pois assim prestariam mais atenção ao que ele fazia do que nele próprio. Ninguém nunca ri das roupas do palhaço... 

Cresceu assim. Fingia que não ligava, mas ligava e muito. Tornou-se rato de biblioteca por gostar de ler e para esconder-se dos outros. E cresceu em meio aos livros e ao conhecimento... 

Aos poucos, tornou-se menos feio. Aliás, dando um bom trato em suas roupas, até que era bonitinho. Arrumou a primeira namorada só aos dezessete anos, mas, aos poucos, tornou-se namorador. 

A timidez continuava atrapalhando e ele não sabia ainda falar com as pessoas que não conhecia. A biblioteca, sempre ela, salvou-o de novo. Lia todos os jornais, lia todas as revistas semanais, lia até o resultado das palavras cruzadas. Aos poucos, juntava armas para enfrentar aos que não conhecia, pois agora tinha assunto para falar-lhes. Faltava vencer a maldita timidez... 

Aos poucos, ele aprendeu a dominar-se. A instrução ganha nas revistas e jornais davam o conteúdo ao que falava. E ele aprendeu a falar. 

Como um bom orador, falava com convicção, acreditava no que dizia e dizia somente o que acreditava. Produzia argumentos e desmontava teorias com a facilidade dos que entendem do que falam. Seus olhos brilhavam quando entrava em uma discussão, pois havia em suas palavras paixão e força... 

Acumulava capital informativo a todo instante. Já não ia mais a biblioteca para fugir e sim para armar-se. E ele estava, cá entre nós, muito bem armado... Sentia-se andando em um gigante tanque de guerra, blindado, com poder de fogo para atingir altos alvos e não ser destruído, nunca. Tinha velocidade e força como os Panzer's alemães. Pena que se esqueceu do destino dos germânicos... 



Esqueceu que dentro daquele enorme tanque havia um piloto, e ele não protegeu o piloto, que continuava sendo o mesmo menino, escondido e com medo que sempre fora. Ninguém no mundo sabia o que lhe ia pela cabeça, se estava feliz ou triste, se estava bem ou não... Ainda hoje, ele não se lembra de alguém perguntando: 



"Você é feliz?”


O menino-piloto, de capacete e uniforme, foi atingido várias vezes. Muitas balas passaram pela couraça forte e reluzente do tanque de guerra nas muitas batalhas que ele travou, e a maioria delas acertaram-no em cheio. Achava-se inatingível em seu tanque, mas não o era... E descobriu da pior maneira possível...

A perna que quebrou, levando junto a carreira de atleta, a mãe que adoeceu, levando junto a tutora quando ele mais precisava de uma... O pai que brigou, o avô que morreu, o pai que se foi de uma hora para outra...

A cada tiro que tomava mais e mais se encolhia em sua falsa fortaleza, mais e mais escondia o menino e mais e mais expunha o tanque, o homem forte, cheio de conhecimentos, que sabia falar e que não errava...

Perdia a couraçada aos poucos e, a cada tiro que tomava, deixava mais e mais o homem na linha de mira dos inimigos.

Um dia, o homem ruiu, destruindo o tanque, e o que restou disso foi só o menino. 

A longa e grossa corda pendurada no fundo do velho prédio colocaria um ponto final naquela encenação. Ele sabia que era um menino, que seu tanque quebrara e nunca mais voltaria a funcionar como antes. Seria ele, aquele moleque com medo e inseguro, quem teria que terminar a longa e complicada guerra que ainda restava, mas ele não queria lutar sem seu tanque.

“Chega. Acabou.” 

Abriu um caderno qualquer, numa página em branco qualquer e começou a escrever o que seria sua despedida para o mundo. Começou a despir-se, finalmente, do que sobrou do tanque, ali, naquela folha branca de papel.

Foi naquelas páginas em branco que ele tirou seu capacete, arrancou o seu uniforme militar, jogou fora as medalhas por heroísmo que achava ter direito, mesmo sabendo não ter. Nunca foi herói e tinha certeza disso... 

Ao passo que escrevia, mais e mais ficava nu. E gostava de ver-se assim, nu, exposto. Ali, naquelas mágicas páginas brancas, podia perguntar-se a si mesmo se ele era feliz.

A pergunta e a resposta viriam sempre com tanta convicção quanto possível, com verdade, por ser uma resposta dele para ele mesmo, sem preocupações para com os outros. Danem-se os outros!

Desistiu de matar-se.

Hoje, escreve no papel tudo o que se passa em sua alma. Anda nu, não precisa de tanques ou uniformes, pois achou um lugar onde ele sente-se verdadeiramente seguro.

Ali não é medido por suas roupas, ninguém pergunta sobre suas cicatrizes, ninguém, além dele, sabe se é gordo ou magro, feliz ou triste, bom ou mal.

Somente no papel achou a sua arena, a arena perfeita para as idéias que lhe corroíam a alma, para expor o que pensa sobre si e pensa sobre os outros. Ali se digladia consigo mesmo e gosta do adversário. Olha-se nos olhos e diz:

-Vem me derrotar, se puder! 

Aquele caderno, que um dia começou a guardar uma carta de adeus, guardava agora a alma daquele menino que tinha medo, mas que ali não tem mais, e, quem sabe, encontrou-se...

Ele continua sozinho, cerca-se de conhecimento, mas não se esconde mais. Aprendeu, e gostou, a exibir a sua alma e o que pensa, goste o mundo ou não. Tem o direito de escrever.

Por isso estou aqui. Já fui aquele menino medroso, já andei de tanque, já ganhei medalhas por bravura...

Podia ter morrido pendurado numa corda grossa num velho prédio, mas descobri o gosto maravilhoso que é tornar menos brancas as folhas dos cadernos que encontro por ai, jogados num canto... E descobri que posso ser feliz fazendo isso. E descobri a verdadeira essência de minha vida: como é bom andar nu!

5 comentários:

Flávia disse...

Olha, já te falei que adoro tudo o que vc escreve( menos quando vc fala mal do meu time!) , mas hoje...me surpreendeu.
Continuo sem palavras pra expressar o quanto gostei desse texto e o quanto vejo vc em cada letra, em cada frase.
Juro que não consigo te imaginar um menino frágil e tímido, até por saber de algumas de suas travessuras da infância.Quando tentei, só me veio na cabeça o tanque de guerra, o homem culto, o profissinal dedicado que TEM que ver TUDO SEMPRE PERFEITO e o cara divertido que tempre uma gracinha pra dizer.
Seu uniforme pode estar sujo e sua couraça pode estar em pedaços...isso mostra o quanto vc lutou e ainda luta pra vencer todas as batalhas que trava.
Tenho certeza absoluta que passa por mais essa!

Beijos e se cuida hein, menino!!!!

Anônimo disse...

Já li esse texto, li de novo e contintuo achando-o maravilhoso. Um abraço!

Michele P. disse...

Não sei se é porque fui extremamente tímida, gordinha e calada na infância, que hoje, como professora, consigo identificar de longe os meus alunos que sofrem por se sentirem diferentes.
Sei que não é fácil superar "traumas" como os que descreveu aqui e faço o que posso para amenizar os efeitos mais drásticos.
Outro dia, enquanto folheava uma revista, um deles apontou para a imagem de um homem obeso e gritando para que todos os outros ouvissem, disse: "Olha o J.V.!!!"
Todos correram ver a foto e começaram a rir.
O J.V. encolheu-se todo na carteira.
Aproximei-me do grupo e do menino que havia falado e perguntei pq estava falando aquilo, ao que ele respondeu:
"- Ele(o homem da foto) é gordo, mole e feio. Igual o J.V."

Pensei rápido e respondi:
"- Bom, então eu e o J. somos iguais ao homem. Pq se o J. é como ele pq é gordinho, eu também sou, já que também estou fora do peso."

Vendo que eu me comparava com o colega, o menino da frase infeliz ficou tão sem jeito que duvido que venha a repeti-la. Já o J.V. sorriu tímido, mas orgulhosamente vingado...

Naquele dia fui para casa satisfeita. Tenho certeza de que agi da melhor forma possível.

Jeany disse...

Você recebeu um mimo: dê uma espiadinha no meu blog!!!!

Beijos

Guilherme disse...

parabens ein cara vc escreve pra car*lho!!!