SOBRE O BLOG

Miscelânea intuitiva de gostos, sonhos, desejos, angústias, paixões e destemperamentos, e,porque não, de ódios, raivas e estresses... Miscelânea é assim: TEM DE TUDO!

Meu Diário de Bordo da solidão, meu painel de idéias e guia de entendimento, tudo misturado com humor, drama, terror, anti-corintianismo, sentimentos e doses homeopáticas de papo sério.

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terça-feira, 10 de junho de 2008

O HOMEM SEM PÉS

Estava caminhando calmamente, indo até uma agência dos correios para enviar uma carta.
Antigamente escrevia tantas... Uma, duas, três, até quatro cartas por semana, mas, uma hora, o poço seca e ficamos sem assunto ou encontramos alguém que nos faz lembrar menos dos amigos ou, ainda, enchemos nosso saco, por ter aquela obrigação de estar sempre bem-humorado, em todas as cartas que escrevemos. Isso sem contar que sou usuário compulsivo de Internet, o que me fez substituir quase que totalmente as cartas de papel...
O fato é que, hoje, escrevi uma carta, a primeira do ano, e estava indo colocá-la no correio. Poderia enfiá-la numa caixa de coleta, mas eu tinha tempo sobrando e resolvi ir andando até a agência. Antes a tivesse colocado na caixa...
Num dado momento do caminho, observo um senhor sentado na calçada. Tinha os cabelos grisalhos e bem penteados, a roupa até que não estava feia, relógio no pulso... Olhei-o melhor e descobri o porquê do senhor estar sentado naquele canto, encostado num muro, direto no chão: ele não tem pernas!
Arrancaram, não sei por qual motivo, suas pernas no meio das coxas. Ele andava apoiando-se nas mãos, como um ginasta olímpico fazendo exercícios num cavalo com alças.
Aquilo me impressionou.
Não que eu nunca tenha visto um homem sem pernas, mas aquele era diferente.
Primeiro, estava bem vestido. Segundo, não pedia dinheiro, não exigia a pena dos transeuntes para a sua situação. E terceiro e mais importante, ele conversava com outro homem, esse com pernas, e dava altas risadas de alguma coisa que falavam.
Rir, mesmo sem ter as duas pernas... Não sei se teria essa força!
Lembrei-me naquela hora de uma moça, linda, que um dia vi, quando eu tinha uns 15 anos, esperando um ônibus.
A praça lotada, dezenas de pessoas esperando seus ônibus para voltarem para suas casas, e entre tantas pessoas, uma me chamou a atenção. Parecia que a menina voltava da escola, mochila nas costas, calça e jaqueta jeans, cabelos amarrados com um rabo-de-cavalo, as duas mãos dentro do bolso da jaqueta. Era tão linda que parecia um anjo. Tinha mais ou menos a mesma idade que eu, via-se a jovialidade em seus traços, sentia-se algo gostoso olhando para aquela menina.
Ao chegar o ônibus, ela tirou as mãos da jaqueta e subiu. Aliás, tirou ”a” mão, pois só tinha uma, sendo o outro braço cortado no meio do antebraço.
Senti um gelo na espinha e uma vontade de falar com ela, de abraçá-la, de confortá-la. Senti pena daquela menina tão linda, mas sem uma mão. Imaginei as humilhações e dificuldades que passava, as inseguranças e dúvidas que devia ter. Eu tinha as duas e vivia cheio de inseguranças... Isso sem contar o quão cruel pode ser uma criança quando quer... E existem muitas crianças cruéis, que deveriam gozar da pobre menina por seu defeito físico...
Devia ter a mesma idade que eu e estava ali, mutilada, mas vivendo...
Ao ver o homem sem pernas, ali, na rua, e ao lembrar-me daquela menina, veio a minha mente um verso sobre isso:

“EU RECLAMAVA POR NÃO TER SAPATOS, ATÉ QUE VI ALGUÉM QUE NÃO TINHA PÉS!”

Não sei quem escreveu, nem mesmo sei aonde li, mas aquela frase voltou a minha memória com a mesma força e nitidez com que via a menina sem mão.
Lembrei-me de meu joelho machucado e senti-me mesquinho. Reclamo pela dor que sinto e incomoda, mas prefiro mil vezes a minha dor à falta do que doer.
Não gostei de ver o homem ali, sentado no chão.
Parecia jogar na minha cara, aos berros:
-Você tem duas pernas, você tem dois braços, então use-os, vá treinar ou andar ou trabalhar! Use-os, porque não posso mais usar os meus!
Não acredito em castigo divino ou vontade de Deus como explicação para o que vi, pois que pai cortaria as pernas do filho para puni-lo, ou que pecado tão grave pode ter cometido uma linda jovem de apenas 15 anos, com toda uma vida pela frente?
Acho que pessoas assim existem para lembrar-nos o quanto são importantes os nossos pés e mãos e o quão mesquinhos somos, até infantis, por uma dor no joelho ou uma torçãozinha no pulso...
Acredito que eles não pensem assim, e, no fundo, sei que a minha idéia não tem fundamento nenhum, mas olhei as minhas mãos perfeitas e minhas pernas não tão sãs, mas ali, no lugar, e senti-me culpado por não usá-las melhor, e esqueci, por alguns minutos, a minha dor crônica nos joelhos e o tênis que me roubaram...
Naqueles longos minutos, refleti sobre o que eu tinha e agradeci, em silêncio, a Deus.

4 comentários:

Andrea disse...

Você me fez ficar emocionada! E está mais do que certo em agradecer mesmo suas pernas e esquecer dos seus tênis roubados. Que texto lindo... Se sua intenção era emocionar seus leitores e fazê-los refletir sobre suas vidas, conseguiu. Eu mesma me peguei pensando em tudo que me aconteceu recentemente, e já agradeci a Deus por tudo estar dando certo. Parabéns por suas palavras!

Adriana disse...

Muito bom...o texto!!Como sempre!
Eu muitas vezes tb já me vi nessa mesma situação, e tb agradeço a Deus por td q tenho!bjs

Noa_Prada disse...

Oi, queridão!!!Este texto está bem forte mesmo...
Não teria como parar na metade...é um texto que dá vontade de chegar no final.
Adorei!
Beijão grandão

AdoRfo disse...

Cara, já te disse uma vez e vou repetir:

VC ARRAGAÇA!

Maravilhoso o texto...

Bração