SOBRE O BLOG

Miscelânea intuitiva de gostos, sonhos, desejos, angústias, paixões e destemperamentos, e,porque não, de ódios, raivas e estresses... Miscelânea é assim: TEM DE TUDO!

Meu Diário de Bordo da solidão, meu painel de idéias e guia de entendimento, tudo misturado com humor, drama, terror, anti-corintianismo, sentimentos e doses homeopáticas de papo sério.

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sexta-feira, 30 de novembro de 2007

A ÁRVORE DE NATAL

Éramos pobres, não paupérrimos, mas dinheiro era artigo de luxo em nossa casa.
Morávamos em uma casa de madeira, com três quartos, um quintal enorme com muitas árvores, numa velha casa de fundos, e para chegarmos nela necessitávamos atravessar um longo corredor.
Era dezembro, eu devia ter uns quatro ou cinco anos de idade, e o clima de Natal já tomava conta da pequena cidade onde morávamos. Um dia, reparei:
-Pai, cadê a nossa árvore de Natal?
Em nossa casa não havia árvore de Natal. As bolas eram caras, a própria árvore não deveria ser barata, e antes do supérfluo vinha o necessário...
Meu pai olhou-me, pensativo. Respirou fundo e pensou por mais alguns instantes, tempo mais que suficiente para que a minha notória falta de paciência me impulsionasse em repetir a pergunta:
-Paiêee... Por que aqui em casa não tem árvore de Natal?
-Paiêee...
-Paiêee...
-Paiêee...
-Paiêee...
-Paiêee...
Nisso meu pai sorriu um sorriso diferente. Não era um sorriso sem graça, dado quando não temos desculpas para dar ao moleque pentelho, ou um sorriso falso do tipo “não enche!”. Era um sorriso bonito de quem havia pensado em como fazer algo pelo filho. Era um sorriso constante no rosto de meu pai, pois ele vivia em pensar algo para os filhos, mas aquele sorriso era especial. Ele passou a mão em minha cabeça e respondeu:
-Nossa, o pai esqueceu da árvore... Vamos fazer uma?


Meus olhos se encheram de alegria. Imaginar-me fazendo uma árvore de Natal, junto a meu pai, era melhor do que comprar uma, pois seria a nossa árvore...
Ele rapidamente pegou um serrote e uma escada. Entregou-me o serrote e fomos caminhando até uma das muitas árvores que havia naquele quintal. Olhou para cima, escolheu, escolheu, e acabou por colocar a escada em posição. Subiu e começou a serrar. Quando estava quase acabando, disse:
-Sai de baixo...- no que foi atendido na hora.
O grande galho caiu, sob o olhar radiante de um moleque espantado e impressionado pela destreza do pai.
Arrastamos o galho para perto da casa, nos sentamos no chão e começamos a limpá-lo. Tira um galhinho daqui, arranca aquelas folhas dali, serra mais um pedaço acolá...
Eu, apesar de feliz em estar junto a meu pai, não conseguia mais enxergar, naquele galho caído no chão, a menos sombra de uma árvore natalina. Não entendia nada de árvores de Natal, muito menos em como elas são feitas, mas já havia visto nos filmes que elas eram coloridas, cheias de folhas e galhos e bolas brilhantes, o que, sob nenhum aspecto, tinha algo em comum com aquele galho no chão.
Nisso, meu pai levantou-se, ainda sorridente, com o seu constante sorriso de moleque no rosto. Segurou-me pelos braços e, sem dizer nada, girou-me no ar e montou-me de cavalinho em suas costas. Saímos de casa, sem dizer nada a ninguém...
Atravessamos o longo corredor até sairmos na rua. Viramos à esquerda e seguimos em frente, passando por algumas lojas no caminho, todas enfeitadas com suas lindas e coloridas árvores de Natal, e todas elas diferentes daquele galho seco que jazia caído no quintal.
Entramos em uma das lojas e nela meu pai comprou várias bolas coloridas. Saímos e já entramos em outra, onde ele comprou uma lata de tinta e dois pincéis. Mais uma vez, saímos da loja e entramos em uma terceira, onde compramos um gostoso Chicabon pra cada um...
Eu via o mundo do alto, sentado no cavalo de batalhas que era meu pai. Sentia-me seguro ali, sabia que nada de mal me alcançaria estando naquele lugar. Sabia que meu pai me protegeria de qualquer perigo e qualquer ataque, e me sentia o rei do mundo em suas costas...
Chegamos em casa, não sem antes eu derrubar sorvete em sua cabeça... Fomos correndo até aquele galho feio e esquisito que estava no quintal. Ele arrumou uma lata de tinta e encheu-a com terra, fincamos o galho naquela lata, e aquilo ficou horrível, não era uma árvore de Natal. Parecia uma cena do nordeste do Brasil...
Nisso, meu pai abriu a lata de tinta que havíamos comprado. Deu-me um pincel nas mãos e ficou com o outro. Disse:
-Vamos ver se você pinta bem...- desafiando-me como sempre fazia.
Começamos a pintar, eu com o meu pincel, ele com o dele, caprichando em cada cantinho e curva daquele galho. A tinta, viscosa e prateada, era linda e dava uma nova cara àquele galho feio, que nesse momento deixava de ser tão feio...
Pintado, deixamos que ele secasse por algum tempo e, passadas algumas horas da pintura, pusemos a mão na massa: meu pai abriu uma caixa de algodão e, arrancando os chumaços, íamos colando-os no galho prateado. Um pouco aqui, mais um pouco acolá, mais no centro...
Depois vieram as fitas, nas quais eu não conseguia fazer o maldito laço (como os laços de meu pai também não ficaram assim uma maravilha, acho que destreza manual não é artigo de origem genética...), mas que mesmo mal amarradas, deixavam o velho galho feio com uma aparência maravilhosa.
Eu me sentia nas nuvens...
Por último vieram as bolas: azuis, vermelhas, amarelas, prateadas... Meus olhos brilhavam ao vê-las penduradas na nossa árvore. Colocava-as com todo o cuidado do mundo, como se aquilo fosse um dos presentes que os reis magos deram ao menino Jesus. Colocava-as com carinho, colocava-as com orgulho, uma a uma, com a ajuda de meu pai, íamos enfeitando e arrumando o maior enfeite que teríamos em casa.
Depois, sozinho, ele colocou-a na sala, aquela que era a primeira árvore de Natal de minha vida, pois era uma obra minha e de meu pai.
Sentava-me horas e horas na sua frente, observando o brilho das bolas, o colorido das fitas, as curvas dos galhos, e quando saía às ruas e via aquelas árvores enfeitadas nas lojas, dizia a mim mesmo:
-A nossa é muito mais bonita...
Isso aconteceu há mais de vinte anos e tudo o que havia de bonito naquela época jaz enterrado, sobrevivendo somente em minha cabeça. Nunca mais tive um Natal com uma árvore tão linda, sei que não terei mais Natais com meu pai nem verei seu sorriso de moleque nos lábios, e, a bem da verdade, sei que não terei mais Natal algum que se compare com aquele, cuja árvore foi criada do nada, saída de um galho seco cortado de uma árvore do quintal de uma pobre casa de madeira, mas que até hoje me dá orgulho e saudades, e é triste saber que nunca mais terei de volta algo tão especial...

4 comentários:

Lorena disse...

só por aki pra te encontrar, heim? entra e sai do orkut sem dar a menor satisfação, não responde emails.... to desistindo de vc, seu logan!

ve se aparece pelo menos por aki. também voltei a ser uma mocinha escrevedeira.

bjos!

Lorena disse...

snif... que texto lindo (pra variar)

uma vez fiz uma árvore de natal com meu pai tb... a primeira também... te dizer q era um pinheirinho de plástico, enefeitado apenas com bolas vermelhas. hoke ainda temos árvore todos os anos em casa... mas não temos mais meu pai. e é dakela árvore que eu sinto saudades :')

Lorena disse...

e cadê o post novo?

♪ Lorena disse...

toc toc